As pesquisas científicas mostram
que os gatos são infectados por
retrovírus representantes das
três subfamílias: 1)
Spumavirinae – tendo como
representante o vírus formador
de sincicio felino (FeSFV), que induz a
uma infecção persistente,
mas não aparente, sem
evidência de patogênese ao
hospedeiro; 2) Oncornavirinae –
incluindo o vírus da leucemia
felina (FeLV) e do sarcoma felino
(FeSV); e 3) Lentivirinae –
compreendendo o vírus da
imunodeficiência dos felinos (FIV)
9.
O vírus da
imunodeficiência dos felinos foi
isolado pela primeira vez por
pesquisadores norte-americanos em 1986,
embora seja provável que exista
já há algum
tempo22. Este vírus
pertence à mesma
subfamília do HIV — causador da
síndrome da
imunodeficiência adquirida humana
(AIDS). Inúmeros estudos
estão sendo realizados e indicam
que, apesar de ambos os vírus
pertencerem à mesma
subfamília, eles são
distintos20,28. O FIV
é similar ao HIV
morfologicamente e nas estruturas das
proteínas, mas difere
antigenicamente e na especificidade da
espécie18. O FIV
é altamente espécie-
específico, ou seja, só
se replica em células
felinas23. Ao penetrar na
célula, o vírus induz
à transcrição
reversa, processo pelo qual o DNA viral
é copiado a partir do seu RNA,
com a participação de uma
enzima denominada transcriptase
reversa9. Esta cópia
do DNA do genoma vírico
incorpora-se ao DNA cromossômico
da célula
hospedeira27. A
transcriptase reversa do FIV, comparada
com a transcriptase de outros
lentivírus, necessita do
íon de magnésio, e difere
da transcriptase reversa do HIV, na
seqüência primária
dos aminoácidos, porém
seus genes compartilham de 40 a 65% de
homologia
genética20.
Os estudos
soroepidemiológicos demonstram
que o lentivírus felino
está disseminado na maioria dos
países do mundo inteiro e
revelam que a prevalência da
infecção varia de acordo
com as diferentes
localizações
geográficas2,12,24,26.
Modo de transmissão
O FIV está presente na
saliva, sangue, soro, plasma, bem como
no líquido cerebrospinal dos
gatos infectados16,23. O
vírus encontra-se em quantidades
bem menores no sêmen e no
leite3. A forma de
transmissão natural mais comum
do vírus nos gatos é
feita através da
mordedura23,27,30. Em seu
efeito, a mordedura atua como uma
injeção de saliva
contendo o vírus, sendo a saliva
o principal veículo de
propagação do
FIV30. A transmissão
vertical da infecção pelo
leite pode ocorrer se as gatas forem
infectadas durante a
gestação27.
Não tem sido documentada a
transmissão
transplacentária, como
também, não foram bem
sucedidas as tentativas de
transmissão venérea sob
condições naturais ou
experimentais3,23.
Os gatos que constituem o grupo de
risco são os de idade superior a
6 anos, machos, com acesso à rua
e a outros gatos, estando mais sujeitos
às brigas (Fig. 1)
3,24.
O FIV apresenta um tropismo celular
pelos linfócitos T-helper com
marcadores de superfície para
antígeno CD4 (grupos
determinantes antigênicos para
designar os grupos químicos
particulares de uma molécula que
lhe conferem a especificidade
antigênica), à
semelhança da
infecção pelo
HIV21,32,33. O FIV infecta
células negativas para
determinante antigênico CD4, tais
como: células renais Crandell
felinas, linfócitos CD8,
linfócitos B, astrócitos,
monócitos, macrófagos,
células
dendríticas1,3.
É postulado que o
vírus seja englobado, processado
e apresentado pelas células
dendríticas aos
linfócitos T CD4 pertencentes
aos linfonodos de drenagem3.
Acredita-se que esta
apresentação ocorra nos
linfócitos T dos
folículos
corticais30.
O esgotamento e a
disfunção nas
células dendríticas
ocorre antes que se produza qualquer
efeito nos linfócitos
T27,30. Nota-se após
a infecção, uma
diminuição lenta
porém progressiva dos
linfócitos T CD4, levando a uma
diminuição da
razão CD4/CD8, aumento da
produção de interleucina
6 (IL6) pelos macrófagos,
ocorrendo também a
hipergamaglobuminemia, devido ao
aumento policlonal das células
B27,30.
Estágios clínicos
da infecção pelo FIV
Para delinear o curso
clínico da
infecção pelo FIV,
traçou-se uma série de 5
estágios distintos: fase aguda,
portador assintomático,
persistente linfoadenopatia
generalizada, complexo relacionado
à AIDS e a AIDS felina
propriamente dita3,23,27.
Estágio I: fase aguda
Nas inoculações
experimentais do FIV em gatos verificou-
se que a fase aguda se inicia 4 a 6
semanas após a
infecção27. A
fase aguda caracteriza-se por febre com
duração de vários
dias e leucopenia, que dura de 4 a 9
semanas18. Entretanto,
muitos gatos passam pela fase aguda sem
sinais clínicos da
doença3.
Ocasionalmente, nessa fase, os animais
apresentam sepse, anemia,
diarréia e doenças
mieloproliferativas15,27. Os
achados histopatológicos incluem
hiperplasia dos centros germinativos
nos órgãos
linfóide,
infiltração dos
gânglios linfáticos por
células plasmáticas e
metaplasia mieloide do
baço25. Este
estágio é dificilmente
diagnosticado nos gatos
infectados30.
Estágio II: portador
assintomático
A maioria dos animais sobrevive
a fase aguda da infecção
e evolui para a fase de portador
assintomático por um longo
período de
tempo15,23,30. No entanto,
os achados hematológicos e os
valores dos números dos
subgrupos de linfócitos destes
gatos podem apresentar
alterações, quando
comparados com os gatos não
infectados pelo FIV31. A
diminuição relativa dos
neutrófilos, dos
linfócitos totais e dos
linfócitos CD4, bem como a
diminuição da
razão CD4/CD8 e o aumento das
células B, estão
associados estatisticamente com os
gatos portadores assintomáticos
para o FIV31. As
mudanças histopatológicas
consistem em infiltrados
linfocitários leves em muitos
órgãos e
inflamação do
ceco3.
Estágio III: persistente
linfoadenopatia generalizada
Observações
clínicas demonstraram que
existem alguns gatos infectados pelo
FIV, cuja única forma de
manifestação
clínica é uma persistente
linfoadenopatia generalizada, sugerindo
que seja um estágio da
infecção do FIV (Fig.2)
18.
Estágio IV: complexo
relacionado à AIDS
O quarto estágio é
denominado complexo relacionado
à AIDS (CRA)23. Os
animais manifestam doenças de
natureza crônica, tais como:
doenças dermatológicas,
respiratórias ou doenças
entéricas3,12,23,30.
As gengivites, estomatites e
periodontites têm sido sinais
clínicos mais comuns entre gatos
infectados pelo FIV (Fig.3)
27,30. Num grau menor de
freqüência, alguns gatos
apresentam infecção do
trato respiratório superior,
perda de peso, otites externas,
abscessos, feridas de difícil
cicatrização, febre,
diarréia,
alterações
hematológicas (anemia,
linfopenia, neutropenia e
trombocitopenia), neoplasias e
doenças neurológicas
(Fig.4)3,27,30. Pode-se
diferenciar os gatos com CRA dos gatos
portadores assintomáticos pelo
aumento das células
CD831. Nas enfermidades
típicas, quando os gatos
infectados pelo FIV são
comparados com os gatos não
infectados, afetados de forma
semelhante, observa-se que os gatos
infectados pelo FIV seguem mantendo uma
diminuição na percentagem
do número total de
linfócitos T, uma
diminuição no
número de CD4 e uma
diminuição na
relação CD4/CD8, junto a
um aumento do número das
células B31. Neste
estágio clínico as
alterações
histopatológicas demonstram uma
atrofia ou uma hiperplasia
linfóide6,27. Uma
diferença observada entre gatos
infectados pelo FIV e os gatos
não infectados é o grau
de plasmocitose moderada
presente25.
EstágioV (terminal):
síndrome da
imunodeficiência adquirida
Geralmente, após o quarto
estágio, os gatos exibem a
doença de forma progressiva e
desenvolvem uma síndrome similar
à AIDS humana7.
Alguns autores classificam os gatos
infectados pelo FIV no quinto
estágio, quando estes
desenvolvem enfermidades potencialmente
letais como linfoma,
insuficiência renal ou
criptococose (Fig. 5 & Fig.6)
30. Este último
estágio está marcado pela
redução das
células B com um nível
persistente baixo de
CD46,31.
Freqüentemente, nos gatos
infectados pelo FIV nota-se anemia e
azotemia irresponsiva aos
tratamentos34. Os animais
apresentam rins pequenos, hipotermia e
esgotamento das funções
orgânicas (Fig.7) 29.
Observa-se uma
infiltração
linfocitária nos rins,
pulmões e cérebro em
gatos infectados pelo
FIV29,30. Estudos
preliminares têm sugerido que a
infecção direta dos
linfócitos produz uma
transformação
neoplásica na
célula23,27. O
diagnóstico patológico da
AIDS é baseado na
presença de
depleção linfóide
generalizada e infecção
de natureza oportunista ou neoplasia
maligna15. Os gatos com AIDS
extenuam por um período de 1 a 3
meses, evoluindo para o
óbito3,30.
Diagnóstico
O diagnóstico da
infecção pelo FIV baseia-
se na detecção do
vírus infectando
linfócitos T ativados no sangue
periférico ou pela
amplificação da
seqüência de ácidos
nucléicos do FIV-
provírus, no sangue
periférico ou em outras
células pela
reação em cadeia da
polimerase (PCR)3,16.
De modo geral, a
demonstração de
anticorpos séricos frente
às proteínas do
vírus dos gatos infectados tem
sido o meio de diagnóstico mais
empregado para a detecção
da infecção pelo FIV
3,12,17,16,24. Os relatos
revelam que os anticorpos circulantes
dos gatos infectados pelo FIV aparecem
2 a 4 semanas após a
infecção e são
detectáveis durante toda a vida
do animal 3,12,23. Isto deve-
se ao fato dos gatos não se
recuperarem da infecção,
existindo uma correlação
direta da presença do anticorpo
com a presença do
vírus12,17. As
técnicas utilizadas para
detecção dos anticorpos
circulantes dos gatos infectados pelo
FIV são a
imunofluorescência indireta
(IFA), o teste imunoenzimático
(ELISA), a
radioimunoprecipitação
(RIPA) e a técnica de Western
blotting (WB)
3,12,16,19,24.
Em nossa rotina, os gatos são
identificados como infectados pelo FIV
através do teste ELISA, com a
utilização de kits
comerciais de fácil
manipulação (Fig.8)
3,12,17,24. O resultado
é obtido pelo médico
veterinário em 10 minutos,
aproximadamente.
Imperfeições na
sensibilidade ou especificidade do
teste ELISA têm sido minimizadas
pelo uso de proteínas
recombinante do FIV3,17.
Recomenda-se que os gatos
hígidos positivos para a
infecção pelo FIV
através do método ELISA,
sejam avaliados pelas técnicas
de WB ou IFA, visto que estes testes
são considerados mais
específicos3,7.
A técnica de Western blotting
é considerada a mais
sensível; além disso,
fornece um diagnóstico mais
fidedigno, pois detecta
múltiplos anticorpos
específicos contra várias
proteínas virais em uma
só
reação3,22.
Entretanto, uma pequena
população de gatos
infectados não apresenta
anticorpos para o FIV após a
infecção por longos
períodos de
tempo12,17. A mesma
situação ocorre nos
estágios terminais da
infecção, em que os
níveis de anticorpos circulantes
dos felinos enfermos são baixos
e difíceis de serem
detectados3,12,17. Nestes
casos, a PCR é um método
quase perfeito quanto à
sensibilidade para
detecção da
infecção pelo FIV, pois
identifica o provírus do FIV na
célula
hospedeira4,17.
Tratamento
O tratamento de suporte dos gatos
infectados pelo FIV visa conter as
infecções
secundárias e oportunistas, bem
como a desidratação,
anemia e
desnutrição23.
Este plano terapêutico deve ser
delineado conforme as necessidades de
cada animal23. Geralmente,
os gatos enfermos recebem drogas
antimicrobianas, fluidos,
transfusões
sangüíneas e dietas de
elevada densidade
calórica19,23.
Entretanto, nota-se uma
diminuição nas respostas
terapêuticas com a
progressão da
infecção associada a
imunossupressão17.
As pesquisas para o tratamento dos
lentivírus são
multifacetadas e abrangem modificadores
da resposta biológica,
inibidores da transcriptase reversa
(incluindo a droga AZT e PMEA),
células-alvo, bloqueadores dos
receptores do vírus, transplante
de medula óssea e terapia
genética8,10,19.
O AZT (zidovudina 3’-azido-2’,3’-
desoxitimidina, Retrovir®-AZT,
GlaxoWellcome, RJ, RJ) é um
agente antivirótico altamente
ativo in vitro contra
retrovírus20. O
trifosfato de zidovudina age como um
inibidor da transcriptase reversa
virótica e como substrato para a
mesma20,23,27. O AZT inibe a
replicação viral in
vitro e in vivo dos gatos
infectados pelo FIV10;11.
Estudos clínicos revelam que a
terapia com o AZT melhora o estado
geral e imunológico dos gatos
infectados8,11. O AZT deve
ser empregado na dosagem de 5mg/kg,
duas vezes ao dia, por via
oral11. O uso das
soluções orais de
zidovudina para gatos facilita a
obtenção da dose ideal
diária 12. Os
parâmetros hematológicos
dos felinos devem ser cuidadosamente
monitorados em função da
anemia e depressão da medula
óssea, que pode ocorrer com o
uso prolongado do AZT12,17.
Todavia, alguns relatos demonstraram
que o AZT é bem tolerado pelos
gatos infectados pelo FIV e
evidenciaram um pequeno
decréscimo nos valores de
hemoglobina10,11.
Infelizmente, os felinos
domésticos infectados pelo FIV
podem não responder a terapia
com o AZT devido a
mutações do
vírus17.
O PMEA (9-(2-fosfonometoxietil)
adenina) é, também, um
inibidor da transcriptase reversa do
FIV, empregado na dosagem de 2,5mg/kg,
duas vezes ao dia17. Estudos
preliminares observaram que o PMEA
é mais potente do que o AZT,
porém mais
tóxico12,17.
Prognóstico
O prognóstico dos gatos
infectados não está
totalmente elucidado, pois dependendo
da influência do meio ambiente,
alguns felinos tornam-se relativamente
saudáveis por um longo
período, mesmo com uma
progressiva falência do sistema
imunológico15,27.
Os animais infectados pelo FIV devem
ser mantidos longe do contato com
outros gatos qa fim de prevenir a
transmissão da doença e
não ficarem expostos a
infecções por
patógenos
oportunistas3,34. Vale a
pena lembrar que os gatos permanecem
infectados pelo FIV por toda a vida,
mesmo produzindo anticorpos contra uma
variedade de
antígenos16,33.
Prevenção
A vacinação dos gatos
seria o método ideal à
prevenção e controle da
infecção pelo
FIV17,19,34. No entanto,
vários tipos de vacinas
experimentais estão sendo
utilizadas, produzindo resultados
variados quando os gatos são
expostos ao
vírus3,33.
A proteção contra o
FIV (vírus específica)
foi obtida somente com a
imunização dos gatos com
vacinas de vírus inativado
totalmente12,27,33. O
sucesso desta vacina deve-se ao emprego
do vírus derivado de uma
linhagem celular denominada FL4, que se
caracteriza por ser uma linhagem
específica de linfoblasto felino
infectada persistentemente com a cepa
Petaluma33. Porém,
uma vacina efetiva deve ser capaz de
proteger os gatos contra as
variações
antigênicas das diferentes cepas
e não somente da cepa vacinal e
deve prover imunidade por um
período igual ou superior
há um ano17.
Nos gatos imunizados com complexos
imuno estimulantes (ISCOMs), contendo
recombinante expressando gp120 ou gp
160, observou-se mais suscetibilidade
à infecção pelo
FIV quando expostos ao
vírus3,33.
No que concerne à
vacinação de gatos para
FIV, os estudos revelam que a
imunização induz ao
desenvolvimento de anticorpos
circulantes, detectáveis pelos
métodos convencionais usados de
forma rotineira para o
diagnóstico da
enfermidade12,17. Isto
sugere que, com o emprego das atuais
vacinas experimentais, haveria
dificuldade em diferenciar gatos
infectados pelo FIV dos animais
vacinados17. Outro aspecto
importante da infecção
pelos lentivírus é a
capacidade de realizar
mutações no hospedeiro,
tornando ainda mais complexa a
elaboração de vacinas
apropriadas3,27,33.
Estudos preliminares apontam o uso
de vacinas contendo DNA do FIV como uma
linha de pesquisa promissora ao
entendimento do mecanismo de
proteção
vacinal33.
À luz dos conhecimentos
atuais, a prevenção
contra a infecção pelo
FIV é feita mantendo os animais
sadios no interior de suas
residências, inviabilizando,
desta forma, brigas com animais
positivos12,23,27. É
oportuno lembrar que, nas
transfusões
sangüíneas, o gato doador
não deve apresentar anticorpos
ao lentivírus3.
Conclusão
Atualmente, a AIDS felina causada
pela infecção do FIV
não tem cura. Faz-se
necessário, no entanto, sermos
capazes de dar um diagnóstico
fidedigno para cada gato e,
indubitavelmente, traçar
estratégias para o controle e
prevenção da
infecção pelo FIV nos
felinos domésticos em nosso
país.
É provável que o fruto
do trabalho dos pesquisadores, junto a
um melhor entendimento dos aspectos da
biologia molecular do vírus,
conduzam à
produção de uma vacina
efetiva, num futuro não muito
distante.
Novas drogas anti-retrovírus
e imunomoduladoras deverão ser
testadas a fim de fornecerem uma
terapia adequada à
infecção dos
lentivírus.
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